Nome:
ANTONIO
Cidade:
RIO DE JANEIRO
Estado:
RJ
Data:
04/07/2007
Execução fenomenal, gravação espetacular, interpretação contestável. Abbado já tinha gravado a 6ª Sinfonia, talvez a mais árida e mais clássica de Mahler, recentemente com a Filarmônica de Berlim, em gravação que saiu em SACD. Tanto na versão com a orquestra berlinense quanto com a Orquestra do Festival de Lucerna, a execução da obra é primorosa, não fossem as duas orquestras extraordinárias. A qualidade de imagem e som deste DVD da Euroarts é, como sempre, exemplar, cfe. já se poderia esperar dos produtos da Euroarts. O que incomoda nesta versão, como já havia me incomodado na versão com a Filarmônica de Berlim, são as escolhas feitas pelo maestro Abbado. Um ponto é a inversão da ordem nos movimentos centrais. Ao invés de executar Scherzo-Andante, como está na partitura original da Sinfonia, Abbado, a exemplo do que já havia feito em SACD, executa Andante-Scherzo, escolha feita por bem poucos maestros. Na verdade, Mahler escreveu Scherzo-Andante, mas, por alguma razão que ninguém sabe qual, ao reger pela primeira vez a sinfonia, inverteu a ordem dos movimentos centrais e parece assim ter feito em todas as vezes em que regeu a 6ª. O maestro Benjamin Zander, em seu ciclo comentado das sinfonias de Mahler, explica que a ordenação mais lógica é Scherzo-Andante, devido às conexões tonais e temáticas entre Scherzo e primeiro movimento. Assim, é mais lógico que o Scherzo seja executado logo depois do movimento inicial, deixando o Andante como o terceiro movimento. No encarte que acompanha o DVD, há a explicação de que Abbado considera a mudança da ordem uma opção melhor, mas não diz por quê. Seria porque, na sinfonia clássica e de Beethoven, o minueto ou o scherzo são normalmente o 3º movimento e o movimento lento é normalmente o 2º? E, considerando-se que esta sinfonia é a mais clássica de Mahler, a ordem Andante-Scherzo estaria justificada. Seria por isso que Abbado optou por essa ordem? Mas é só lembrarmos que, na 9ª de Beethoven, o scherzo vem antes do movimento lento. Um outro ponto é a omissão do terceiro e último golpe do martelo, no Finale. Esta sinfonia foi composta em um dos períodos mais felizes da vida de Mahler, mas poucos anos depois, em 1908, Mahler sofreria três golpes fatais do destino (que estariam representados pelos 3 golpes do martelo): o primeiro com a perda do cargo de diretor da Ópera de Viena, por questões ligadas ao anti-semitismo, que começava a aparecer nos países de língua alemã (Mahler era judeu). O segundo golpe foi a morte de sua filha mais velha e o terceiro, a descoberta pelo compositor de que era portador de doença cardíaca gravíssima. Tudo isso culminando com a morte do compositor 3 anos depois, em 1911. A 6ª sinfonia, conhecida como Trágica, seria, então uma espécie de premonição do compositor. Consta que Mahler retirou o último golpe do martelo por medo, mas a verdade é que essa retirada tira esse caráter de obra de premonição da 6ª. E a execução da obra sem o último golpe vem sendo a versão preferida da maioria dos maestros. Excetue-se Leonard Bernstein, que, no seu ciclo Mahler dos anos 70, disponível em DVD, não omitiu o terceiro golpe. Teria Abbado feito a omissão com o fito de tornar a obra menos autobiográfica, como seria o caso das sinfonias clássicas? Mas é bom lembrar que a obra de Mahler não é clássica, faz parte do Romantismo em sua fase final e, portanto, ainda que a 6ª Sinfonia seja clássica por uma série de motivos, não deixa de ser ter um caráter romântico e, portanto, justificavelmente autobiográfico, como era comum no romantismo. Assim, a retirada do último golpe do martelo faz com que a obra perca um pouco do sentido que Mahler quis dar a ela. Confesso que preferiria tê-la ouvido de acordo coma concepção inicial de Mahler: a ordem Scherzo-Andante e os 3 golpes do martelo, o último golpe quase ao final do último movimento.